jueves, 11 de junio de 2026

INVISIBILIDADES 2







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INVISIBILIDADES 2 (português)

 Em um comunicado, o presidente da Bolívia convocou um confronto civil por meio de um discurso claramente racista. Nesse discurso, garantiu apoio militar e até judicial a um grupo de bolivianos, enquanto negava e deslegitimava outro grupo ao utilizar os termos “bolivianos do futuro” e “bolivianos do passado”. Com esta última expressão, referia-se aos manifestantes, reduzindo-os a um grupo pequeno, insignificante e desprovido de valor humano, que, segundo ele, nem sequer seria lembrado pela história.

Pouco depois de o comunicado circular, o presidente o removeu das redes sociais, como alguém que esconde a mão depois de atirar uma pedra — um verdadeiro ato de covardia. Ainda assim, sua mensagem chegou exatamente aonde deveria chegar: ao núcleo fascista e oligárquico, carregado de ódio contra o “índio”, um setor que desfruta de privilégios, considera-se branco e, por isso, superior. Seria interessante ver essa suposta branquitude ser colocada à prova na América do Norte ou na Europa.

Foi assim que, no último fim de semana, o grupo violento que se autodenomina “La Unión Juvenil Cruceñista”, armado com facões e outras armas e sob influência de drogas, atacou membros de comunidades camponesas na região de San Julián. Como resultado, um comunário foi morto por um golpe de facão na testa. No entanto, a imprensa não menciona esse fato; uma imprensa cúmplice dessa e de outras mortes que também não aparecem nos meios oficiais, como se essas vidas não tivessem qualquer valor.

O que a mídia divulga é uma imagem distorcida das marchas. Elas são apresentadas como violentas, enquanto a população urbana é retratada como vítima. O medo é alimentado por uma narrativa que reduz os manifestantes a alguns vândalos supostamente pagos pelo ex-presidente Evo Morales, que, ao mesmo tempo, é perseguido por diversos crimes sem que provas conclusivas tenham sido apresentadas.

A influência do aparato midiático ultrapassa inclusive as fronteiras nacionais, reproduzindo como um eco as narrativas produzidas pelos centros bolivianos de desinformação. Não é coincidência que a rebelião boliviana seja pouco mencionada em muitos países europeus e que, quando aparece, seja reduzida a um pequeno grupo manipulado que apoia Evo Morales. Além de silenciar a repressão e as vítimas, os meios de comunicação internacionais tampouco explicam quem marcha, quem organiza os bloqueios, quais são suas reivindicações ou pelo que lutam.

O que não se diz é que comunidades camponesas e indígenas de diferentes regiões do país aderiram às mobilizações para defender seu direito à terra; que professores e trabalhadores exigem aumentos salariais prometidos; e que os mineiros, após séculos trabalhando em condições precárias, continuam lutando enquanto interesses empresariais estrangeiros acumulam riqueza graças ao sacrifício daqueles que extraem os recursos do subsolo.

Todos eles defendem os recursos nacionais e exigem a renúncia de um presidente que, um dia, aproximou-se dessas comunidades vestindo um poncho vermelho, como se fosse apenas uma peça de roupa, quando na realidade se trata de um símbolo aimará de resistência e dignidade. Esse mesmo homem utilizou o poncho para conquistar o apoio e os votos das comunidades. Hoje, porém, é ele quem chama de “vândalos” e “selvagens” o poncho vermelho e o povo que traiu por meio de medidas e leis que ameaçam seu acesso digno à terra que trabalham honestamente.

Ele os chama de “bolivianos do passado”, negando simbolicamente seu direito de existir com dignidade, e classifica suas reivindicações como “terrorismo” e “narcoterrorismo”.

O governo de Rodrigo Paz, no entanto, sente-se fortalecido. Conta com o apoio de seu padrinho Trump, do Estado de Israel e de seus aliados. Conta também com estratégias de inteligência e segurança feitas nos Estados Unidos. Por isso, não é surpreendente que se repitam padrões semelhantes aos observados na Palestina ocupada: alimentar o ódio dentro de um setor da sociedade, espalhar medo e exaustão, atribuir a um grupo o papel de vítima, manipular os meios de comunicação e criar inimigos internos.

Os atos de resistência são apresentados como atos de terrorismo. O que realmente acontece é filtrado, e seu significado é distorcido na cobertura internacional. Essas são estratégias destinadas a criminalizar e minimizar a luta social, culminando na adoção de leis e estados de exceção que concedem ao exército e à polícia o poder de deter e atirar contra a população mobilizada, tudo isso com o consentimento de cidadãos previamente doutrinados pelo ódio.

Trata-se do ódio contra os povos indígenas, tolerados apenas quando ocupam posições de serviço e subordinação, mas condenados assim que ousam participar da construção do futuro do país — um privilégio que, segundo essa lógica colonial, estaria reservado exclusivamente à elite oligárquica.

E o soldado? E o policial? Eles também são subordinados. Filhos e filhas de povos indígenas que acabam disparando contra seus próprios ancestrais e obedecendo ordens dirigidas contra suas próprias comunidades. Treinados para não sentir dor nem empatia, são levados a desumanizar o seu próprio povo.

Tornar invisível para o exterior o que está acontecendo significa, na prática, abrir caminho para um massacre. Isso já ocorreu inúmeras vezes ao longo da história, contra os mesmos povos e sob as ordens daqueles que hoje apoiam ou executam campanhas genocidas de limpeza étnica contra povos como os do Líbano, da Palestina, de Cuba e de tantos outros que ousam resistir de pé e de forma soberana.

Os povos que permanecem despertos diante dessas realidades deveriam unir-se a essa luta: denunciando abusos, tornando visíveis essas injustiças, ocupando as ruas e erguendo uma só voz em defesa de seu direito de existir em liberdade.

E aqueles que exigiram aos gritos a decretação do estado de exceção deveriam lembrar, quando se sentarem tranquilamente para comer seu prato de frango com batatas, que, segundo esta perspectiva, esse alimento está manchado com o sangue de seus irmãos e irmãs.

E para o Ocidente, que muitas vezes possui apenas uma vaga noção do que acontece naquele país distante chamado Bolívia, vale recordar que o país possui uma das maiores reservas de lítio do mundo. Trata-se do mesmo mineral utilizado na fabricação das baterias que alimentam inúmeros dispositivos tecnológicos. Um recurso atualmente cobiçado por aqueles que financiam guerras e procuram controlar essa riqueza.

Cada vez que você abrir uma tela, pense no sangue que, segundo esta visão, está por trás de muitos dos recursos que sustentam o mundo moderno. O sangue de pessoas daquele distante país chamado Bolívia, que defendem seus recursos e sua soberania.

E aos jilatas e kullakas dos povos que resistem em todo o mundo: não haverá paz sem justiça. Na cultura boliviana, o ayni é um princípio de reciprocidade e trabalho coletivo. Graças a esse sistema, meu país consegue organizar-se de maneira articulada e solidária em escala nacional. Somos milhões e sempre voltaremos. Até a vitória, sempre.

INVISIBILIDADES 2 (english)

 In a public statement, the president of Bolivia called for civil confrontation through a clearly racist discourse. In that statement, he guaranteed military and even judicial support to one group of Bolivians while denying and delegitimizing another by referring to them as “Bolivians of the future” and “Bolivians of the past.” With the latter expression, he was referring to the marchers, portraying them as a small, insignificant group lacking human value, one that, according to him, would not even be remembered by history.

Shortly after it began circulating, the president deleted the statement from social media, like someone hiding their hand after throwing a stone—a true act of cowardice. Nevertheless, his message reached exactly where it was intended to: the fascist and oligarchic core, driven by hatred toward the “Indian,” a sector that enjoys privileges, considers itself white and therefore superior. It would be interesting to see that supposed whiteness put to the test in North America or Europe.

This is how, last weekend, the violent group calling itself “La Unión Juvenil Cruceñista,” armed with machetes and other weapons and reportedly under the influence of drugs, attacked rural community members in the San Julián region. As a result, one community member was killed by a machete blow to the forehead. Yet the press does not mention it; a press complicit in that death and in others that likewise fail to appear in official media coverage, as though those lives held no value.

What the media does disseminate is a distorted image of the marches. They are portrayed as violent while the urban population is presented as the victim. Fear is cultivated through a narrative that reduces the demonstrators to a handful of vandals allegedly paid by former president Evo Morales, who at the same time is being prosecuted for various crimes without conclusive evidence having been presented.

The influence of the media apparatus extends far beyond national borders, echoing the narratives produced by Bolivian disinformation centers. It is no coincidence that the Bolivian uprising receives little attention in many European countries and that, when it is mentioned, it is often reduced to a small manipulated group supporting Evo Morales. In addition to silencing the repression and the victims, international media outlets rarely explain who is marching, who is organizing the blockades, what their demands are, or what they are fighting for.

What is left unsaid is that rural and Indigenous communities from different regions of the country have joined the mobilizations to defend their right to land; that teachers and workers are demanding promised wage increases; and that miners, after centuries of laboring under harsh conditions, continue to struggle while foreign business interests accumulate wealth through the sacrifice of those who extract the country's underground resources.

All of them are defending national resources and demanding the resignation of a president who once approached these communities wearing a red poncho, as though it were merely a piece of clothing, when in fact it is an Aymara symbol of resistance and dignity. That same man used it to win communal support and votes. Today, he is the one who labels the red poncho—and the people he betrayed through laws and policies that threaten their dignified access to the land they work honestly—“vandals” and “savages.”

He calls them “Bolivians of the past,” symbolically denying their right to exist with dignity, while branding their demands as “terrorism” and “narco-terrorism.”

The government of Rodrigo Paz, however, feels empowered. It enjoys the support of its patron Trump, the State of Israel, and their allies. It also relies on intelligence and security strategies made in the USA. For that reason, it is not surprising that patterns similar to those observed in occupied Palestine are being repeated: fostering hatred within a sector of society, spreading fear and exhaustion, assigning one group the role of victim, manipulating the media, and creating internal enemies.

Acts of resistance are portrayed as acts of terrorism. What is actually happening is filtered and its meaning distorted in international media coverage. These are strategies aimed at criminalizing and minimizing social struggle, ultimately leading to the enactment of laws and states of emergency that grant the army and police the authority to detain and shoot at mobilized citizens, all with the consent of people who have first been indoctrinated with hatred.

It is hatred directed at Indigenous people, tolerated only when they occupy positions of service and subordination, but condemned the moment they dare to take part in shaping the future of the country—a privilege that, according to this colonial logic, is reserved exclusively for the oligarchic elite.

And the soldier? And the police officer? They too are subordinate. Sons and daughters of Indigenous peoples who end up firing upon their own ancestors and obeying orders against their own communities. Trained not to feel pain or empathy, they are encouraged to dehumanize their own people.

Making what is happening invisible to the outside world is, in effect, giving free rein to a massacre. History has witnessed this many times before, against the same kinds of peoples and under the direction of those who today support or carry out genocidal campaigns of ethnic cleansing against nations and communities such as those of Lebanon, Palestine, Cuba, and many others that dare to resist with dignity and sovereignty.

The peoples who remain awake to these realities should join this struggle: by denouncing abuses, making these injustices visible, taking to the streets, and raising a single voice in defense of their right to exist in freedom.

And those who loudly demanded the declaration of a state of emergency should remember, when they sit down to enjoy their plate of chicken and potatoes, that according to this perspective, that meal is stained with the blood of their brothers and sisters.

And for the West, which often has only a vague understanding of what is happening in that distant country called Bolivia, it is worth remembering that Bolivia possesses one of the largest lithium reserves in the world. It is the same mineral used to manufacture the batteries that power countless technological devices. Today, it is a resource coveted by those who finance wars and seek to control it.

Every time you open a screen, think of the blood that, according to this view, lies behind many of the resources that sustain the modern world. The blood of people from that distant country called Bolivia, who are defending their resources and their sovereignty.

And to the jilatas and kullakas of the peoples resisting throughout the world: there can be no peace without justice. In Bolivian culture, ayni is a principle of reciprocity and collective work. Thanks to that system, my country is able to organize itself collectively and in coordination across the national territory. We are millions, and we will always return. Hasta la victoria, siempre.

INVISIBILIDADES 2 (Nederlands)

 In een verklaring riep de president van Bolivia op tot een burgerlijke confrontatie via een duidelijk racistisch discours. Daarin garandeerde hij militaire en zelfs gerechtelijke steun aan een bepaalde groep Bolivianen, terwijl hij een andere groep ontkende en uitsloot door de termen “Bolivianen van de toekomst” en “Bolivianen van het verleden” te gebruiken. Met die laatste uitdrukking verwees hij naar de demonstranten, die hij afschilderde als een kleine, onbeduidende groep zonder menselijke waarde, een groep die volgens hem door de geschiedenis niet eens vermeld zou worden.

Kort nadat de verklaring was verspreid, verwijderde de president deze van sociale media, zoals iemand die zijn hand verbergt nadat hij een steen heeft gegooid — als een ware lafaard. Zijn boodschap bereikte echter precies waar ze moest aankomen: de fascistische en oligarchische kern, doordrenkt van haat tegenover de “indiaan”, een groep die van privileges geniet, zichzelf als wit beschouwt en zich daarom superieur waant. Het zou interessant zijn om die vermeende witheid eens op de proef te stellen in Noord-Amerika of Europa.

Zo gebeurde het dat het gewelddadige gezelschap dat zichzelf “La Unión Juvenil Cruceñista” noemt, afgelopen weekend, gewapend met machetes en andere wapens en onder invloed van drugs, gemeenschapsleden aanviel in de regio San Julián. Daarbij werd een dorpsbewoner met een macheteslag op het voorhoofd gedood. Maar de pers vermeldt dit niet; een pers die medeplichtig is aan deze en andere sterfgevallen die eveneens uit de officiële berichtgeving worden geweerd, alsof deze levens geen enkele waarde zouden hebben.

Wat men wel verspreidt, is een verdraaid beeld van de protestmarsen. Ze worden voorgesteld als gewelddadig, terwijl de stedelijke bevolking als slachtoffer wordt neergezet. Angst wordt gezaaid via een narratief dat de demonstranten reduceert tot een handvol vandalen die zogenaamd betaald worden door voormalig president Evo Morales, die tegelijk wordt vervolgd voor verschillende misdrijven zonder dat daarvoor overtuigend bewijs is geleverd.

De invloed van het mediatische apparaat reikt zelfs voorbij de landsgrenzen en herhaalt als een echo de leugens die worden geproduceerd door Boliviaanse desinformatiecentra. Het is geen toeval dat de Boliviaanse opstand in veel Europese landen nauwelijks wordt vermeld en dat zij, wanneer dit wel gebeurt, wordt gereduceerd tot een kleine, gemanipuleerde groep die Evo Morales steunt. Naast het verzwijgen van de repressie en de slachtoffers wordt in de internationale media evenmin uitgelegd wie er marcheren, wie de blokkades organiseren, wat hun eisen zijn of waarvoor zij strijden.

Men vertelt niet dat uit verschillende delen van het land boeren- en inheemse gemeenschappen deelnemen om hun recht op land te verdedigen; dat leraren en arbeiders opkomen voor beloofde loonsverhogingen; of dat mijnwerkers, die al eeuwenlang onder zware omstandigheden werken, zich verzetten terwijl buitenlandse ondernemers hun fortuinen opbouwen dankzij het offer van degenen die de rijkdom uit de bodem halen.

Zij allen verdedigen de nationale rijkdommen en eisen het aftreden van een president die ooit de gemeenschappen bezocht met een rode poncho om zijn schouders, alsof het slechts een kledingstuk was, terwijl het in werkelijkheid een Aymara-symbool van verzet en waardigheid is. Diezelfde man gebruikte het om de stemmen van de gemeenschappen te winnen. Vandaag noemt hij die rode poncho, en het volk dat hij heeft verraden met maatregelen en wetten die hun waardige toegang tot het land bedreigen, “vandalen” en “wilden”.

Hij noemt hen “Bolivianen van het verleden”, waarmee hij hun recht op een waardig bestaan symbolisch ontkent, en bestempelt hun eisen als “terrorisme” en “narcoterrorisme”.

De regering van Rodrigo Paz voelt zich echter gesterkt. Hij rekent op de steun van zijn peetvader Trump, van de staat Israël en van hun bondgenoten. Daarnaast beschikt hij over inlichtingen- en veiligheidsstrategieën die “made in USA” zijn. Daarom is het niet verwonderlijk dat patronen zichtbaar worden die lijken op die welke zijn waargenomen in bezet Palestina: het aanwakkeren van haat binnen een deel van de samenleving, het zaaien van angst en uitputting, het toekennen van de slachtofferrol aan één groep, het manipuleren van de media en het creëren van interne vijanden.

Daden van verzet worden voorgesteld als terroristische daden. Wat er daadwerkelijk gebeurt, wordt gefilterd en de betekenis ervan wordt vervormd in de internationale media. Dit zijn strategieën die erop gericht zijn sociale strijd te criminaliseren en te minimaliseren, wat uiteindelijk uitmondt in de invoering van wetten en noodtoestanden die het leger en de politie de bevoegdheid geven om demonstranten te arresteren en op hen te schieten, alles met de instemming van burgers die vooraf zijn doordrenkt met haat.

Het gaat om haat tegen de inheemse bevolking, die alleen wordt getolereerd zolang zij een dienende en ondergeschikte rol vervult, maar wordt veroordeeld zodra zij het aandurft de toekomst van het land mede vorm te geven — een voorrecht dat volgens die koloniale logica uitsluitend zou zijn voorbehouden aan de oligarchische elite.

En de soldaat? En de politieagent? Ook zij zijn ondergeschikten. Zonen en dochters van inheemse volkeren die uiteindelijk schieten op hun eigen voorouders en bevelen opvolgen tegen hun eigen gemeenschap. Getraind om geen pijn of empathie te voelen, terwijl zij hun eigen mensen ontmenselijken.

Het onzichtbaar maken van wat er gebeurt voor het buitenlandse publiek betekent in feite vrij spel geven aan een bloedbad. Dat is in de geschiedenis al vele malen gebeurd, tegen dezelfde bevolkingsgroepen en onder leiding van degenen die vandaag genocidale vormen van etnische zuivering ondersteunen of uitvoeren tegen volkeren zoals die van Libanon, Palestina, Cuba en vele andere die het aandurven om rechtop en soeverein weerstand te bieden.

Volkeren die niet slapen zouden zich bij deze strijd moeten aansluiten: door misstanden aan de kaak te stellen, deze onrechtvaardigheden zichtbaar te maken, de straat op te gaan en met één stem hun recht op vrijheid en bestaan uit te roepen.

En degenen die luidkeels hebben gepleit voor de afkondiging van de noodtoestand zouden, wanneer zij rustig hun bord kip met aardappelen eten, moeten beseffen dat dit voedsel volgens deze visie bevlekt is met het bloed van hun broeders en zusters.

Voor het Westen, dat vaak slechts een vaag idee heeft van wat er gebeurt in dat verre land dat Bolivia heet, is het belangrijk te herinneren dat Bolivia over een van de grootste lithiumreserves ter wereld beschikt. Het is hetzelfde mineraal dat wordt gebruikt voor de batterijen van talloze technologische apparaten. Een grondstof die vandaag de dag begeerd wordt door degenen die oorlogen financieren en zich deze rijkdom willen toe-eigenen.

Elke keer dat je een scherm opent, denk dan aan het bloed dat volgens deze visie schuilgaat achter veel van de grondstoffen waarop de moderne wereld draait. Het bloed van mensen uit dat verre land Bolivia, die hun natuurlijke rijkdommen en hun soevereiniteit verdedigen.

En aan de jilatas en kullakas van de volkeren die overal ter wereld weerstand bieden: er zal geen vrede zijn zonder rechtvaardigheid. Het ayni, een fundamenteel principe binnen de Boliviaanse cultuur, verwijst naar wederkerigheid en gemeenschappelijke arbeid. Dankzij dat systeem kan mijn land zich op een collectieve en georganiseerde manier op nationaal niveau verbinden. Wij zijn met miljoenen, en wij zullen altijd terugkeren. Hasta la victoria, siempre.

INVISIBILIDADES 2 (español)

En un comunicado, el presidente de Bolivia llamó al enfrentamiento civil mediante un discurso claramente racista, en el que garantizaba la colaboración militar e incluso judicial a un grupo de bolivianos, mientras negaba y anulaba a otro utilizando los términos “bolivianos del futuro” y “bolivianos del pasado”. Con esta última expresión se refería a los marchistas, minimizándolos como un grupo reducido, insignificante y carente de valor humano, al que, según él, la historia no mencionaría. 

Poco después de haber circulado, el presidente eliminó el comunicado de las redes sociales, como quien esconde la mano después de lanzar la piedra, como un verdadero cobarde. Sin embargo, su mensaje llegó a donde tenía que llegar: al núcleo fascista y oligárquico, cargado de odio hacia el “indio”, que disfruta de privilegios, se considera blanco y, por lo tanto, superior, sería interesante ver poner a prueba su blancura en el norte del continente o en Europa. 

Así fue como el pasado fin de semana el violento grupo que se hace llamar “La Unión Juvenil Cruceñista”, armado con machetes y otras armas, y bajo la influencia de drogas, atacó a comunarios en la región de San Julián. Como resultado, un comunario fue asesinado con un machetazo en la frente. Pero la prensa no lo menciona; una prensa cómplice de esa y de otras muertes que tampoco aparecen en sus medios oficiales, como si esas vidas no tuvieran ningún valor. 

Lo que sí difunden es una imagen tergiversada de las marchas. Las presentan como violentas y victimizan a la población urbana, sembrando el miedo mediante una narrativa que reduce a los marchistas a unos cuantos vándalos supuestamente pagados por el expresidente Evo Morales, quien al mismo tiempo es perseguido por diversos delitos sin que se hayan presentado pruebas concluyentes.

El arma mediática trasciende incluso el ámbito internacional, repitiendo como un eco las mentiras generadas por los centros de desinformación bolivianos. No es casualidad que en muchos países europeos apenas se mencione la rebelión boliviana y que, cuando se hace, se la reduzca a un pequeño grupo manipulado que apoya a Evo Morales. Además de silenciar la represión y los martirios, tampoco se explica en los medios internacionales quiénes marchan, quiénes bloquean, qué demandan ni qué exigen.

No dicen que desde diferentes puntos del país se suman comunidades campesinas que defienden su derecho a la tierra; maestros y obreros que reclaman incrementos salariales prometidos; y mineros que llevan siglos trabajando en condiciones precarias mientras empresarios extranjeros llenan sus bolsillos gracias al sacrificio de quienes extraen la riqueza del subsuelo.

Todos ellos defienden los recursos nacionales y exigen la renuncia de un presidente que un día se acercó a las comunidades vistiendo un poncho rojo, como si fuera una simple prenda de vestir, cuando en realidad es un símbolo aymara de resistencia y dignidad. Aquel hombre lo utilizó para ganarse el voto comunal. Ahora es el mismo que llama “vándalo” y “salvaje” al poncho rojo, al pueblo que traicionó con medidas y leyes que amenazan su acceso digno a la tierra que trabaja honestamente. Lo llama “boliviano del pasado”, negándole simbólicamente su derecho a existir con dignidad, y califica sus demandas de “terrorismo” y “narcoterrorismo”. 

El gobierno de Rodrigo Paz, sin embargo, se siente empoderado. Cuenta con el apoyo de su padrino Trump, del Estado de Israel y de sus aliados. Cuenta también con estrategias de inteligencia made in USA. Por eso no resulta casual que se repitan patrones similares a los observados en Palestina ocupada: alimentar el odio dentro de un sector de la sociedad, sembrar miedo y cansancio, otorgarle el papel de víctima, manipular los medios de comunicación y fabricar enemigos internos. 

Los actos de resistencia son presentados como actos terroristas. Se filtra lo que sucede y se desfigura su significado en los medios internacionales. Son estrategias destinadas a criminalizar y minimizar la lucha social, que finalmente desembocan en la promulgación de leyes y estados de excepción que otorgan al ejército y a la policía facultades para detener y disparar contra el pueblo movilizado, todo ello con el consentimiento de ciudadanos previamente adoctrinados en el odio.

Es el odio al indio, tolerado únicamente cuando ocupa un papel de servicio y subordinación, pero condenado cuando se atreve a tomar las riendas del futuro del país, un privilegio que, según esa lógica colonial, estaría reservado exclusivamente para la élite oligárquica.

¿Y el soldado? ¿Y el policía? También subordinados. Hijos de indígenas que terminan disparando y obedeciendo órdenes contra sus propios ancestros. Adiestrados para no sentir dolor ni empatía, deshumanizando a su propia gente.

Invisibilizar en el extranjero lo que está ocurriendo es dar vía libre a una masacre. Así ha ocurrido en numerosos momentos de la historia, contra los mismos actores y bajo las órdenes de quienes hoy apoyan o ejecutan agresiones genocidas de limpieza étnica contra pueblos como los de Líbano, Palestina, Cuba y tantos otros que se atreven a resistir de pie y de manera soberana. 

Los pueblos que no duermen deberían unirse a esta lucha: denunciando, visibilizando estas injusticias, ocupando las calles y gritando con una sola voz su derecho a existir en libertad.

Y quienes pidieron a gritos la promulgación del estado de excepción, cuando puedan sentarse a comer tranquilamente su plato de pollo con papas, deberían recordar que ese alimento está manchado con la sangre de sus hermanos.

Y para Occidente, que apenas tiene una vaga idea de lo que sucede en ese país lejano llamado Bolivia, conviene recordar que posee una de las mayores reservas de litio del mundo, el mismo mineral utilizado para fabricar las baterías de muchos dispositivos tecnológicos. Un recurso hoy codiciado por quienes financian guerras y buscan apropiarse de él.

Cada vez que abras una pantalla, piensa que hay sangre derramada detrás de muchos de los recursos que alimentan el mundo moderno. Sangre de personas de aquel lejano país llamado Bolivia que, según esta visión, están muriendo mientras defienden sus recursos y su soberanía. 

Y a los jilatas y kullakas de los pueblos que resisten en todo el mundo, no habrá paz sin justicia, el ayni en nuestra cultura boliviana se aplica al trabajo comunitario, gracias a ese sistema mi país puede organizarse de forma articulada a nivel nacional. Somos millones y siempre volveremos, hasta la victoria siempre. 

jueves, 21 de mayo de 2026

LOS INVISIBLES (EN, NL, PT)


Bolivia vuelve a ocupar titulares y protagonismo en un escenario geopolítico muy complejo, atravesado por los múltiples tentáculos del mismo actor imperialista y colonial. En publicaciones anteriores ya había hablado del proceso deshumanizador que los intereses externos promueven para dividir a las sociedades y hacerlas más vulnerables al saqueo. Incluso, en una de ellas, realicé una crítica al liderazgo de las bases que impulsaron el voto nulo y terminaron contribuyendo al fracaso de las últimas elecciones presidenciales.

Mi paso por el país, concretamente por la ciudad de La Paz, me reveló una realidad mucho más compleja. La izquierda, y todo lo que mínimamente se le pareciera, había desaparecido: enterrada, silenciada, como si se quisiera borrar de la memoria colectiva. Vi indiferencia y frialdad. Me sorprendió la ausencia de pensamiento crítico y la manera en que se miraba con molestia, incluso con asco, a los pequeños colectivos que salían a protestar: insignificantes, incómodos, molestos para una ciudad anestesiada.

Supe después que en otros escenarios, por ejemplo Cochabamba, existía una mayor constancia combativa; un contraste tremendo con la sede de gobierno.

Ahora entiendo que aquel silencio que percibí durante mi estadía era precisamente el silencio que precede a la tormenta. El castillo de arena que ese gobierno había construido comenzaba a desmoronarse al intentar reimplantar medidas y leyes favorables a los grandes empresarios: un proceso que todos los gobiernos anteriores a 2006, sin excepción, habían aplicado para hacer a unos cuantos más ricos mientras el pueblo se empobrecía.

Las reformas revolucionarias que siguieron a partir de 2006, con Evo Morales en el gobierno, mostraron al mundo que otro modelo era posible. Se dio visibilidad a quien nadie quería ver: al “indio”. Se construyó un modelo social y gubernamental que incluyó a quienes antes solo eran concebidos como servidumbre, el único lugar que la oligarquía les concedía a quienes venían del campo. De repente, aquellos a quienes el colonialismo les había arrebatado su valor humano comenzaron a sentir orgullo de sus raíces y a decidir sobre el futuro de su país.

La nacionalización de los recursos abrió paso a mejoras reales en la vida cotidiana: fortaleció la canasta familiar, permitió invertir en educación y sacó a Bolivia del lugar de país más pobre de Sudamérica. Los oligarcas sufrieron ese cambio porque, por primera vez, los beneficios dejaron de concentrarse exclusivamente en ellos y comenzaron a llegar al pueblo boliviano.

Pero, como era de esperar, un país que toma las riendas de sus bienes y de su futuro, un país con autodeterminación, resulta profundamente incómodo para quienes históricamente han saqueado recursos desde el Norte. Al no poder imponer sanciones, se dedicaron a promover el desprestigio: primero contra el líder y, después del golpe de 2019, contra toda la izquierda. Sobre todo en una clase media que, aunque mejoró su posición económica gracias al auge del MAS, nunca asumió un compromiso político real.

Y un sector social sin compromiso político es mucho más vulnerable a la manipulación. Sabemos de sobra que Occidente es experto en eso: existen profesionales enteros dedicados a moldear la opinión pública en función de intereses económicos y geopolíticos.

Eso abrió nuevamente las puertas para que las oligarquías y los intereses extranjeros regresaran al gobierno y entregaran en bandeja de oro los recursos del país.

Recuerdo que, en el momento de las elecciones presidenciales, taché el voto nulo de insensato. Sin embargo, hoy entiendo que los votos nulos, sumados a los votos de izquierda, representaban una mayoría, aunque no absoluta. También fui bastante dura con los líderes divididos y con el propio pueblo. Pero hoy comprendo que, incluso si Evo hubiera podido participar en aquellas elecciones, probablemente no habría ganado ni siquiera en una segunda vuelta. Aun así, el voto nulo dejó claro que el apoyo a Evo seguía siendo masivo en amplios sectores populares.

No imaginé que esa fuerza volvería a hacerse visible tan pronto.

Este contexto de convulsión revela muchas cosas. Por un lado, una derecha que se mueve en los tejidos del engaño, sostenida por medios de comunicación que manipulan al sector menos comprometido, victimizándolo y sembrando miedo. Hacen viral la narrativa de que las marchas están financiadas por Evo Morales; que quienes protestan son “vándalos”, “criminales” o “terroristas” que deben ser silenciados porque “sitian” una ciudad hermosa que solo quiere trabajar y sacar al país adelante.

Repiten que los mineros, como siempre, llegan armados con dinamita y destruyen el asfalto; que los bloqueos son los responsables de la crisis económica; que el gobierno necesita “ayuda” extranjera para rescatar al país de la “miseria socialista”; y que los recortes, el aumento de los precios, las privatizaciones y las modificaciones de leyes constitucionales son culpa exclusiva de la gestión anterior.

Con esa narrativa intentan mantener engañado al sector menos politizado y justificar la represión violenta ejercida por el ejército y la policía, respaldada por intereses extranjeros y organismos alineados con ellos.

Lo que los medios no dicen es que la represión ya deja muertos, más de cien detenidos y una persecución contra líderes sociales que no pertenecen únicamente al evismo, sino a múltiples sectores: campesinos, maestros, mineros, obreros y organizaciones regionales. Personas que caminaron durante semanas para movilizarse y que no son una simple centena: son millones de los mismos que históricamente han dado la cara e incluso la vida.

Ninguno de los medios menciona realmente los motivos ni las demandas: incremento salarial para el sector obrero y el magisterio, defensa de los recursos naturales y de la tierra, denuncia de las promesas incumplidas del gobierno y la exigencia de una participación política digna desde los sectores populares, conscientes de que este gobierno no piensa concederla.

No se trata de un simple berrinche ni de un complot para tomar el poder. Se trata de distintos sectores que arriesgan su vida por su país, sin amedrentarse frente a un ejército al que consideran subordinado a intereses externos.

La represión contra mi gente valiente puede ser brutal, pero la semilla de la rebelión ya comienza a resonar en los países vecinos. Y si han de temernos, que sea porque los pueblos volverán a levantarse unidos, porque volveremos a ser millones junto a los pueblos del Abya Yala, y ningún ejército podrá borrar la fuerza de quienes luchan por dignidad, memoria y autodeterminación.

Jilatanaka kullakanaka, kutt’anipxañäniwa ukat waranqa waranqanakäñäniwa. Jallalla Bolivia.



EN THE INVISIBLE ONES 

Bolivia once again occupies headlines and takes center stage in a highly complex geopolitical scenario, crossed by the multiple tentacles of the same imperialist and colonial actor. In previous publications, I had already spoken about the dehumanizing process promoted by external interests to divide societies and make them more vulnerable to plunder. I even criticized the leadership of grassroots sectors that promoted the null vote and ultimately contributed to the failure of the last presidential elections.

My time in the country, specifically in the city of La Paz, revealed a far more complex reality to me. The left, and everything that even remotely resembled it, seemed to have disappeared: buried, silenced, as if someone wanted to erase it from collective memory. I saw indifference and coldness. I was struck by the absence of critical thinking and by the way small groups that took to the streets to protest were looked at with annoyance, even disgust: insignificant, uncomfortable, bothersome to a numbed city.

Later, I learned that in other places, such as Cochabamba, there was a much stronger combative spirit; a tremendous contrast with La Paz, the seat of government..

Now I understand that the silence I perceived during my stay was precisely the silence that precedes the storm. The sandcastle that government had built was beginning to collapse as it attempted to reintroduce measures and laws favorable to big business: a process that every government before 2006, without exception, had applied to make a few richer while the people grew poorer.

The revolutionary reforms that followed after 2006, with Evo Morales in government, showed the world that another model was possible. Visibility was given to those whom no one wanted to see: the “Indian.” A social and governmental model was built that included those who had previously been treated only as servants, the only role the oligarchy allowed for people from the countryside. Suddenly, those whose human worth had been stripped away by colonialism began to feel pride in their roots and to decide the future of their country.

The nationalization of resources opened the way to real improvements in daily life: it strengthened family economies, allowed investment in education, and lifted Bolivia from its position as the poorest country in South America. The oligarchs suffered from this change because, for the first time, the country’s wealth no longer benefited only them but also reached the Bolivian people.

But, as expected, a country that takes control of its resources and future — a country with self-determination — becomes deeply uncomfortable for those who have historically looted resources from the Global North. Unable to impose sanctions, they turned to discredit campaigns: first against the leader, and after the 2019 coup, against the entire left. Especially among a middle class that, although it improved economically thanks to the MAS boom, never developed a real political commitment.

And a social sector without political commitment is far more vulnerable to manipulation. We know well that the West is an expert at this: entire professionals are dedicated to shaping public opinion according to economic and geopolitical interests.

This once again opened the door for oligarchies and foreign interests to return to government and hand over the country’s resources on a silver platter.

I remember that, during the presidential elections, I called the null vote senseless. However, today I understand that null votes, combined with left-wing votes, represented a majority, though not an absolute one. I was also harsh with divided leaders and with the people themselves. But today I understand that even if Evo had been allowed to participate in those elections, he probably would not have won, not even in a second round. Even so, the null vote made clear that support for Evo remained massive among broad popular sectors.

I did not imagine that this force would become visible again so soon.

This context of upheaval reveals many things. On the one hand, a right wing that moves through networks of deception, supported by media outlets that manipulate the less politically engaged sectors, victimizing them and spreading fear. They push the narrative that the marches are financed by Evo Morales; that the protesters are “vandals,” “criminals,” or “terrorists” who must be silenced because they are “besieging” a beautiful city that only wants to work and move the country forward.

They repeat that miners, as always, arrive armed with dynamite and destroy the roads; that the blockades are responsible for the economic crisis; that the government needs foreign “help” to rescue the country from “socialist misery”; and that budget cuts, rising prices, privatizations, and constitutional changes are solely the fault of the previous administration.

With this narrative, they seek to keep the least politicized sectors deceived and justify violent repression carried out by the army and police, backed by foreign interests and aligned organizations.

What the media do not say is that the repression has already left deaths, more than one hundred detainees, and persecution against social leaders who do not belong only to the “evismo,” but to multiple sectors: peasants, teachers, miners, workers, and regional organizations. People who walked for weeks to mobilize and who are not just a few hundred: they are millions of the same people who have historically put their bodies and even their lives on the line.

None of the media truly mention the reasons or demands: wage increases for workers and teachers, defense of natural resources and land, denunciation of the government’s unfulfilled promises, and the demand for dignified political participation from popular sectors, fully aware that this government has no intention of granting it.

This is not a mere tantrum or a conspiracy to seize power. It is about different sectors risking their lives for their country, unafraid of an army they consider subordinate to external interests.

The repression against my brave people may be brutal, but the seed of rebellion is already beginning to echo throughout neighboring countries. And if they are to fear us, let it be because the peoples will rise united once again, because we will once more be millions alongside the peoples of Abya Yala, and no army will be able to erase the strength of those who fight for dignity, memory, and self-determination.


Jilatanaka kullakanaka, kutt’anipxañäniwa ukat waranqa waranqanakäñäniwa. Jallalla Bolivia.



NL DE ONZICHTBAREN

Bolivia staat opnieuw in de schijnwerpers en speelt een hoofdrol in een uiterst complex geopolitiek scenario, doorkruist door de vele tentakels van dezelfde imperialistische en koloniale macht. In eerdere publicaties sprak ik al over het ontmenselijkingsproces dat door externe belangen wordt bevorderd om samenlevingen te verdelen en kwetsbaarder te maken voor plundering. Ik uitte zelfs kritiek op het leiderschap van bepaalde basissectoren die de blanco stem promootten en zo bijdroegen aan het mislukken van de laatste presidentsverkiezingen.

Mijn verblijf in het land, meer bepaald in La Paz, onthulde voor mij een veel complexere realiteit. Links, en alles wat daar ook maar enigszins op leek, leek verdwenen: begraven, het zwijgen opgelegd, alsof men het uit het collectieve geheugen wilde wissen. Ik zag onverschilligheid en kilte. Wat mij vooral trof, was het gebrek aan kritisch denken en de manier waarop kleine groepen die de straat op gingen om te protesteren met irritatie, zelfs afkeer, werden bekeken: onbeduidend, lastig, hinderlijk voor een verdoofde stad.

Later hoorde ik dat er in andere plaatsen, zoals Cochabamba, een veel grotere strijdlust bestond; een enorm contrast met La Paz, de regeringszetel van het land

Nu begrijp ik dat de stilte die ik tijdens mijn verblijf waarnam precies de stilte was die aan de storm voorafgaat. Het zandkasteel dat die regering had opgebouwd begon in te storten toen zij opnieuw maatregelen en wetten wilde invoeren die gunstig waren voor grote ondernemers: een proces dat alle regeringen vóór 2006 zonder uitzondering toepasten om enkelen rijker te maken terwijl het volk armer werd.

De revolutionaire hervormingen die na 2006 onder Evo Morales werden doorgevoerd, toonden de wereld dat een ander model mogelijk was. Zichtbaarheid werd gegeven aan degenen die niemand wilde zien: de “indiaan”. Er werd een sociaal en politiek model opgebouwd dat mensen omvatte die vroeger enkel als dienstboden werden beschouwd, de enige plaats die de oligarchie aan mensen van het platteland toekende. Plots begonnen degenen van wie het kolonialisme hun menselijke waarde had afgenomen trots te voelen op hun afkomst en mee te beslissen over de toekomst van hun land.

De nationalisatie van de natuurlijke rijkdommen zorgde voor echte verbeteringen in het dagelijks leven: de koopkracht van gezinnen verbeterde, investeringen in onderwijs werden mogelijk en Bolivia verloor zijn positie als armste land van Zuid-Amerika. De oligarchen leden onder deze verandering omdat de rijkdom van het land voor het eerst niet alleen hen ten goede kwam, maar ook het Boliviaanse volk bereikte.

Maar zoals te verwachten viel, is een land dat controle neemt over zijn rijkdommen en zijn toekomst — een land met zelfbeschikking — bijzonder ongemakkelijk voor degenen die historisch gezien de rijkdommen van het Zuiden hebben geplunderd. Omdat sancties niet mogelijk waren, begonnen ze lastercampagnes: eerst tegen de leider en na de staatsgreep van 2019 tegen heel links. Vooral binnen een middenklasse die economisch profiteerde van de bloei van de MAS, maar nooit een echte politieke betrokkenheid ontwikkelde.

En een sociale sector zonder politieke betrokkenheid is veel kwetsbaarder voor manipulatie. We weten maar al te goed dat het Westen hier expert in is: hele groepen professionals houden zich bezig met het vormen van de publieke opinie volgens economische en geopolitieke belangen.

Zo werd opnieuw de deur geopend voor oligarchieën en buitenlandse belangen om terug te keren aan de macht en de rijkdommen van het land op een dienblad aan te bieden.

Ik herinner me dat ik tijdens de presidentsverkiezingen de blanco stem als zinloos bestempelde. Toch begrijp ik vandaag dat de blanco stemmen samen met de linkse stemmen een meerderheid vormden, al was het geen absolute meerderheid. Ik was ook hard voor de verdeelde leiders en voor het volk zelf. Maar vandaag begrijp ik dat zelfs als Evo had mogen deelnemen aan die verkiezingen, hij waarschijnlijk niet eens in een tweede ronde zou hebben gewonnen. Toch maakte de blanco stem duidelijk dat de steun voor Evo onder brede volkssectoren nog steeds enorm was.

Ik had niet gedacht dat die kracht zo snel opnieuw zichtbaar zou worden.

Deze context van onrust onthult veel. Enerzijds is er een rechterzijde die zich beweegt binnen netwerken van misleiding, gesteund door media die de minst politiek betrokken sectoren manipuleren, hen als slachtoffers voorstellen en angst zaaien. Ze verspreiden het verhaal dat de marsen worden gefinancierd door Evo Morales; dat de demonstranten “vandalen”, “criminelen” of “terroristen” zijn die het zwijgen moeten worden opgelegd omdat zij een mooie stad “belegeren” die enkel wil werken en het land vooruithelpen.

Ze herhalen dat mijnwerkers, zoals altijd, met dynamiet komen en wegen vernielen; dat de blokkades verantwoordelijk zijn voor de economische crisis; dat de regering buitenlandse “hulp” nodig heeft om het land te redden van de “socialistische ellende”; en dat besparingen, prijsstijgingen, privatiseringen en grondwetswijzigingen uitsluitend de schuld zijn van de vorige regering.

Met dat verhaal proberen ze de minst gepolitiseerde sectoren misleid te houden en gewelddadige repressie door leger en politie te rechtvaardigen, gesteund door buitenlandse belangen en daarmee verbonden organisaties.

Wat de media niet zeggen, is dat de repressie al doden, meer dan honderd arrestaties en vervolging van sociale leiders heeft veroorzaakt — niet alleen van het “evismo”, maar van verschillende sectoren: boeren, leraren, mijnwerkers, arbeiders en regionale organisaties. Mensen die wekenlang hebben gelopen om zich te mobiliseren en die geen kleine minderheid vormen: het zijn miljoenen van dezelfde mensen die historisch gezien hun lichaam en zelfs hun leven hebben ingezet.

Geen enkel medium vermeldt werkelijk de redenen of eisen: loonsverhogingen voor arbeiders en leerkrachten, verdediging van natuurlijke rijkdommen en land, aanklacht tegen de niet nagekomen beloften van de regering en de eis voor waardige politieke participatie van de volkssectoren, die zich ervan bewust zijn dat deze regering dat niet zal toestaan.

Dit is geen simpele driftbui of een complot om de macht te grijpen. Het gaat om verschillende sectoren die hun leven riskeren voor hun land, zonder angst voor een leger dat zij zien als onderworpen aan buitenlandse belangen.

De repressie tegen mijn moedige volk kan hard zijn, maar het zaad van de opstand begint al weerklank te vinden in de buurlanden. En als men ons moet vrezen, laat het dan zijn omdat de volkeren opnieuw verenigd zullen opstaan, omdat wij opnieuw miljoenen zullen zijn samen met de volkeren van Abya Yala, en geen enkel leger de kracht kan uitwissen van hen die strijden voor waardigheid, geheugen en zelfbeschikking.

Jilatanaka kullakanaka, kutt’anipxañäniwa ukat waranqa waranqanakäñäniwa. Jallalla Bolivia.

PT OS INVISÍVEIS

A Bolívia volta a ocupar manchetes e protagonismo em um cenário geopolítico extremamente complexo, atravessado pelos múltiplos tentáculos do mesmo ator imperialista e colonial. Em publicações anteriores, eu já havia falado sobre o processo desumanizador promovido por interesses externos para dividir as sociedades e torná-las mais vulneráveis ao saque. Inclusive critiquei a liderança de setores de base que impulsionaram o voto nulo e acabaram contribuindo para o fracasso das últimas eleições presidenciais.

Minha passagem pelo país, especificamente pela cidade de La Paz, revelou uma realidade muito mais complexa. A esquerda, e tudo aquilo que minimamente se parecesse com ela, parecia ter desaparecido: enterrada, silenciada, como se quisessem apagá-la da memória coletiva. Vi indiferença e frieza. Surpreendeu-me a ausência de pensamento crítico e a maneira como pequenos grupos que saíam às ruas para protestar eram vistos com incômodo e até desprezo: insignificantes, inconvenientes, perturbadores para uma cidade anestesiada.

Depois soube que em outros lugares, como Cochabamba, existia uma constância combativa muito maior; um contraste enorme com La Paz, sede do governo do país

Agora entendo que aquele silêncio que percebi durante minha estadia era justamente o silêncio que antecede a tempestade. O castelo de areia que aquele governo havia construído começava a desmoronar ao tentar reimplantar medidas e leis favoráveis aos grandes empresários: um processo que todos os governos anteriores a 2006, sem exceção, haviam utilizado para enriquecer alguns poucos enquanto o povo empobrecia.

As reformas revolucionárias iniciadas após 2006, com Evo Morales no governo, mostraram ao mundo que outro modelo era possível. Deu-se visibilidade a quem ninguém queria ver: o “índio”. Foi construído um modelo social e governamental que incluiu aqueles que antes eram vistos apenas como servidão, o único espaço que a oligarquia concedia aos que vinham do campo. De repente, aqueles a quem o colonialismo havia roubado o valor humano passaram a sentir orgulho de suas raízes e a decidir o futuro de seu país.

A nacionalização dos recursos abriu caminho para melhorias reais na vida cotidiana: fortaleceu a economia familiar, permitiu investir em educação e tirou a Bolívia da posição de país mais pobre da América do Sul. Os oligarcas sofreram com essa mudança porque, pela primeira vez, os benefícios deixaram de se concentrar apenas neles e começaram a alcançar o povo boliviano.

Mas, como era de se esperar, um país que assume o controle de seus recursos e de seu futuro — um país com autodeterminação — torna-se profundamente incômodo para aqueles que historicamente saqueiam riquezas do Sul Global. Sem poder impor sanções, passaram a promover campanhas de desprestígio: primeiro contra o líder e, depois do golpe de 2019, contra toda a esquerda. Principalmente em uma classe média que, embora tenha melhorado economicamente graças ao auge do MAS, nunca assumiu um compromisso político real.

E um setor social sem compromisso político é muito mais vulnerável à manipulação. Sabemos muito bem que o Ocidente é especialista nisso: existem profissionais inteiros dedicados a moldar a opinião pública de acordo com interesses econômicos e geopolíticos.

Isso abriu novamente as portas para que oligarquias e interesses estrangeiros retornassem ao governo e entregassem os recursos do país em bandeja de prata.

Lembro que, durante as eleições presidenciais, considerei o voto nulo um erro sem sentido. No entanto, hoje entendo que os votos nulos, somados aos votos da esquerda, representavam uma maioria, ainda que não absoluta. Também fui dura com os líderes divididos e com o próprio povo. Mas hoje compreendo que, mesmo que Evo tivesse podido participar daquelas eleições, provavelmente não teria vencido nem mesmo em um segundo turno. Ainda assim, o voto nulo deixou claro que o apoio a Evo seguia massivo em amplos setores populares.

Não imaginei que essa força voltaria a se tornar visível tão rapidamente.

Esse contexto de convulsão revela muitas coisas. Por um lado, uma direita que se move através das redes da manipulação, sustentada por meios de comunicação que manipulam os setores menos politizados, vitimizando-os e espalhando medo. Difundem a narrativa de que as marchas são financiadas por Evo Morales; que os manifestantes são “vândalos”, “criminosos” ou “terroristas” que precisam ser silenciados porque “cercam” uma bela cidade que só quer trabalhar e fazer o país avançar.

Repetem que os mineiros, como sempre, chegam armados com dinamite e destroem estradas; que os bloqueios são os responsáveis pela crise econômica; que o governo precisa de “ajuda” estrangeira para salvar o país da “miséria socialista”; e que cortes, aumento de preços, privatizações e mudanças constitucionais são culpa exclusiva da gestão anterior.

Com essa narrativa procuram manter enganados os setores menos politizados e justificar a repressão violenta exercida pelo exército e pela polícia, apoiada por interesses estrangeiros e organizações alinhadas a eles.

O que os meios de comunicação não dizem é que a repressão já deixou mortos, mais de cem detidos e perseguição contra líderes sociais que não pertencem apenas ao “evismo”, mas a diversos setores: camponeses, professores, mineiros, operários e organizações regionais. Pessoas que caminharam durante semanas para se mobilizar e que não são apenas uma centena: são milhões dos mesmos que historicamente deram o corpo e até a vida.

Nenhum meio realmente menciona os motivos ou as reivindicações: aumento salarial para trabalhadores e professores, defesa dos recursos naturais e da terra, denúncia das promessas não cumpridas do governo e exigência de uma participação política digna dos setores populares, conscientes de que este governo não pretende concedê-la.

Não se trata de um simples capricho nem de uma conspiração para tomar o poder. Trata-se de diferentes setores arriscando a própria vida por seu país, sem se intimidar diante de um exército que consideram subordinado a interesses externos.

A repressão contra meu povo valente pode ser brutal, mas a semente da rebelião já começa a ecoar nos países vizinhos. E se devem nos temer, que seja porque os povos voltarão a se levantar unidos, porque voltaremos a ser milhões junto aos povos do Abya Yala, e nenhum exército conseguirá apagar a força daqueles que lutam por dignidade, memória e autodeterminação.

Jilatanaka kullakanaka, kutt’anipxañäniwa ukat waranqa waranqanakäñäniwa. Jallalla Bolivia.

jueves, 16 de abril de 2026

LA DESHUMANIZACIÓN GLOBALISTA


 Que este lado del mundo haya desarrollado estratégicamente un sistema individualista, basado en el consumo como forma de existencia —“dime qué consumes y te diré quién eres”, “dime qué marca usas y te diré en qué barrio vives”— no sorprende. La pantalla no solo entretiene: también protege. Evita mirar alrededor y constatar que no estamos solos.

Consumir es cómodo. Incluso la educación se ha transformado en un bien de consumo: ofrece relatos digeribles, tranquilizadores, diseñados para no incomodar. En las clases de historia se habla de territorios “descubiertos”, de riquezas conquistadas, de la exportación de la religión, la ciencia y la civilización. También se habla del dolor, sí, pero de ciertos dolores: el Holocausto o ese que expone Hollywood con Vietnam, o aquel que sintieron los reyes con las guerras independentistas., por ejemplo. Otros duelen menos en el relato dominante. Porque el sufrimiento parece adquirir valor universal solo cuando es “made in Occidente”.

Nadie quiere ocupar el lugar del villano. Si se causó daño, mejor no nombrarlo. Seguir adelante como si no existiera. Pero existe. El colonialismo no es un capítulo cerrado, sino una continuidad. Cambian los actores, no el guion. Y la historia —esa que se supone superada— insiste en repetirse.

Volví a Bolivia —mi casa, mi tierra— para ver a mi gente. “Mi”, no en sentido posesivo, sino como pertenencia compartida. Este viaje fue distinto. Fui con mi madre, para acompañarla en sus trámites y, quizás, para acercarme a ella. Algo de eso ocurrió. Pero también hubo otra constatación: el retorno ya no conducía a un lugar que me esperaba. Ese “seno familiar” se había ido reduciendo hasta desaparecer. Lo sabía, pero no por eso dolió menos.

El contexto tampoco era ajeno. Llegué en medio de un clima político enrarecido, tras elecciones presidenciales que dejaron más preguntas que certezas. Antes de viajar, la noticia de la caída de un avión en El Alto —que transportaba dinero— ya había circulado. No le presté demasiada atención hasta que, al llegar y pagar mi mate de coca, revisaron minuciosamente un billete de 20 bolivianos en el aeropuerto: menos mal no pertenecía a la serie B.

Después supe lo ocurrido. Tras el accidente, la gente corrió a recoger los billetes que caían del cielo. Hubo muertos, heridos, víctimas que no fueron auxiliadas. La condena social fue inmediata: “barbarie”, “mezquindad”, “esa gente”. Lo que siguió fue igual de previsible: prohibición de los billetes (de la serie B que se estaba transportando) y sanción moral. Ninguna pregunta. Ningún intento por entender. Es más fácil juzgar con el estómago lleno.

Un mes después, la medida ya era rutina. Quedaba la duda de si alguien recordaría el origen.

Busqué espacios de conversación: foros, encuentros, debates. Temas urgentes —transparencia informativa, organización comunal, procesos electorales— tratados con rigor por voces reconocidas. Pero las salas estaban casi vacías. Más que ausencia de público, percibí una desconexión: compromiso a medias, política sin base. Tal vez fue solo una impresión.

En la calle, la intensidad se expresaba de otra manera. El fútbol movilizaba más que cualquier discusión pública. La ilusión de clasificar al mundial, seguida de la decepción compartida. También hubo protestas: contratistas impagos, bloqueos de transportistas por combustible adulterado que arruina sus herramientas de trabajo. Reclamos legítimos asumidos por la mayoría con resignación, como una molestia más, sin reconocer que, en el fondo, interpelaban a todos.

Las elecciones subnacionales llegaron con ese telón de fondo,  el día esperado: el de acudir a las urnas y ejercer un derecho democrático. Yo fui como acompañante, ya que, al no ser residente, no puedo votar. Muchos de los votantes acudieron sin tener decidido su voto, como quien va al matadero. Había demasiados candidatos, y los debates se caracterizaron por la escasa participación y los insultos.

Así, en La Paz, ganó para alcalde un candidato apellidado Dockweiler, cuya imagen de campaña se vinculaba al Teleférico (proyecto impulsado durante el gobierno del MAS), aunque en entrevistas evitaba definirse como masista o de izquierda, calificándose como “humanista” y prometiendo reducir la burocracia.

Creo que muchos “jailones” votaron por él, porque la burocracia y la corrupción siguen profundamente arraigadas en la atención pública. Lo viví antes y lo volví a vivir ahora, acompañando a mi madre en sus trámites: madrugando para obtener una ficha, esperando horas para un documento que ni siquiera estaba directamente relacionado con su gestión de jubilación. Llegué a las 5 a. m. y ya había personas esperando desde la 1 a. m., y aun así se agotaron las fichas.

Cuando estaba a punto de unirme a quienes ya bloqueaban la calle exigiendo atención, me dijeron que en la Zona Sur atendían más fácilmente. Y era cierto. La Zona Sur es una burbuja dentro de la ciudad de La Paz: tiendas modernas, casas amplias, bares con terrazas y calefacción.

Sus gentes se parecen mucho a las que describe Víctor Jara en una de sus canciones. En Bolivia las llamamos “jailones” (high). Si se les pregunta por su peor pesadilla, narran el trauma de los días posteriores al golpe de 2019 —aunque ellos lo nombren de otra manera—, cuando los alteños bajaron gritando: “¡Ahora sí, guerra civil!”.

Ellos dicen que los alteños, los aymaras, son unos “salvajes resentidos”; otros los llaman “hueso duro de roer”. Los jailones usan palabras como heavy para expresar gravedad y admiran a Europa y su “civilización”, convencidos de que allí las cosas se hacen bien.

Lo que no saben —y yo sí— es que en Europa también hay burocracia y corrupción, y que muchas veces la gente paga un “extra” para acelerar sus trámites. ¿Seremos nosotros quienes exportamos esa costumbre?

Otro día vi a alguien tirado en el suelo, en una esquina. Parecía muerto. Me acerqué: respiraba. Me sorprendió que nadie más lo hiciera, que nadie se detuviera siquiera a preguntarse lo mismo que yo. Todos pasaban indiferentes, como si no lo vieran. Vi esa escena como vi también a los jailones más altivos que nunca en contraste con la mirada triste y dura —con su coquita en la boca— de quien carga los bultos en el mercado para otros. Por momentos, parece que Bolivia nunca hubiera tenido un presidente indígena ni que hubiese existido un proceso de reivindicación de los pueblos originarios.

Y será que desconocen que, sin embargo, otras formas de organizar la vida, aymaras, ancestrales: el ayni, la minka, el athapi, el waki, el apxata, el yanapanakuy. son prácticas comunitarias que sostienen vínculos donde el sistema ha impuesto competencia. Formas de vida que, incluso hoy, cuestionan las lógicas dominantes y el mismo Marx habría envidiado.

Cuando me preguntan con qué etnia me identifico, respondo: aymara. No por una idea romántica de pertenencia, sino por una herencia menos cómoda: el dolor y lo que le sigue: la rabia. La memoria de lo que fue arrebatado.

Un dolor que no es exclusivo. Lo comparten los descendientes de pueblos esclavizados, quienes han sido expulsados de sus territorios, quienes han visto su historia narrada por otros. Quien lo perdió todo en su tierra palestina lo sabe: no es solo la pérdida material, es el despojo de la dignidad, de la memoria y de las formas de existir, muchas veces negado o contado desde afuera.

Es un dolor que persiste porque ha sido negado. Minimizado. Traducido desde afuera.

Y no, no es un capítulo cerrado.

No dejaremos que lo sea sin reconocimiento ni justicia. Por las buenas o por las malas, si es necesario. Porque mientras los culpables no asuman su responsabilidad, no devuelvan lo arrebatado y nuestras vidas no valgan lo mismo que las vidas “blancas”, no habrá paz.

En mi equipaje traje, entre otras cosas, un método y un diccionario aymara. No sé si aprenderé la lengua como quisiera, pero algo quedó claro: hacía tiempo que no me sentía tan en casa.

Y no era un lugar.

Era la conciencia de pertenecer.



🇬🇧 Globalized dehumanization


That this side of the world has strategically developed an individualistic system, based on consumption as a way of existence—“tell me what you consume and I’ll tell you who you are,” “tell me what brand you use and I’ll tell you which neighborhood you live in”—is not surprising. The screen doesn’t just entertain: it also protects. It prevents us from looking around and realizing we are not alone. Consuming is comfortable.

Even education has been turned into a consumer good: it offers digestible, reassuring narratives, designed not to disturb. In history classes, we speak of “discovered” territories, conquered wealth, the export of religion, science, and civilization. We also speak of pain, yes, but of certain pains: the Holocaust, for example, or the one Hollywood portrays through Vietnam, or the suffering of kings during independence wars. Others hurt less in the dominant narrative. Because suffering seems to acquire universal value only when it is “made in the West.”

No one wants to occupy the place of the villain. If harm was caused, it is better not to name it. To move on as if it did not exist. But it does exist. Colonialism is not a closed chapter, but a continuity. The actors change, not the script. And history—supposedly overcome—keeps repeating itself.

I went back to Bolivia—my home, my land—to see my people. “My,” not in a possessive sense, but as shared belonging. This trip was different. I went with my mother, to accompany her through her paperwork and, perhaps, to get closer to her. Something of that happened. But there was also another realization: returning no longer led to a place waiting for me. That “family core” had shrunk until it disappeared. I knew it, but that did not make it hurt less.

The context was not foreign either. I arrived in the middle of a tense political climate, after presidential elections that left more questions than answers. Before traveling, the news of a plane crash in El Alto—which was carrying money—had already circulated. I didn’t pay much attention until, upon arrival, while paying for my coca tea, a 20-boliviano bill was carefully inspected at the airport: luckily, it was not from the B series.

Later I learned what had happened. After the accident, people rushed to collect the bills falling from the sky. There were deaths, injuries, victims who were not assisted. Social condemnation was immediate: “barbarism,” “greed,” “those people.” What followed was equally predictable: banning the B-series bills and moral punishment. No questions. No attempt to understand. It is easier to judge with a full stomach. A month later, the measure had become routine. The question remained whether anyone would remember its origin.

I looked for spaces for conversation: forums, gatherings, debates. Urgent topics—media transparency, community organization, electoral processes—handled rigorously by well-known voices. But the rooms were almost empty. More than absence of an audience, I sensed a disconnect: partial commitment, politics without a foundation. Perhaps it was just an impression.

On the streets, intensity expressed itself differently. Football mobilized more than any public discussion. The illusion of qualifying for the World Cup, the shared disappointment. There were also protests: unpaid contractors, transport strikes due to adulterated fuel damaging their work tools. Legitimate demands, widely accepted with resignation, like just another inconvenience, without recognizing that they ultimately concern everyone.

The subnational elections arrived against that backdrop: the long-awaited day of going to the polls and exercising a democratic right. I went as an accompanying person, since I am not a resident and therefore cannot vote. Many voters arrived without having decided on their choice, like someone going to the slaughterhouse. There were too many candidates, and the debates were marked by low participation and insults.

In La Paz, the mayoral race was won by a candidate named Dockweiler, whose campaign image was linked to the cable car system (a project promoted during the MAS government). However, in interviews he avoided defining himself as MAS-aligned or left-wing, instead describing himself as a “humanist” and promising to reduce bureaucracy.

I believe many “jailones” voted for him, because bureaucracy and corruption remain deeply rooted in public services. I experienced it before and I experienced it again now, accompanying my mother through administrative procedures: waking up at dawn to get a ticket, waiting hours for a document that wasn’t even directly related to her retirement process. I arrived at 5 a.m. and people had already been waiting since 1 a.m., and even so, the tickets ran out.

When I was about to join those already blocking the street demanding attention, I was told that things were easier in the Southern Zone. And it was true. The Southern Zone is a bubble within the city of La Paz: modern shops, large houses, bars with heated terraces.

Its people resemble those described by Víctor Jara in one of his songs. In Bolivia we call them “jailones” (high society / elite). If you ask them about their worst nightmare, they speak of the trauma of the days after the 2019 coup—although they name it differently—when people from El Alto came down shouting: “Now yes, civil war!”

They say that the people from El Alto, the Aymara, are “resentful savages”; others call them “tough nuts to crack.” The jailones use words like “heavy” to express seriousness and admire Europe and its “civilization,” convinced that things are done properly there.

What they do not know—and I do—is that in Europe there is also bureaucracy and corruption, and that many times people pay an “extra” fee to speed up their procedures. Are we the ones exporting that custom?

Another day I saw someone lying on the ground, in a corner. He looked dead. I approached: he was breathing. I was surprised that no one else did, that no one stopped even to ask themselves the same question I did. Everyone passed by indifferently, as if they did not see him.

I saw that scene as I also saw the most arrogant jailones, contrasted with the sad and hardened gaze—coque leaf in mouth—of those who carry goods in the market for others. At times, it seems as if Bolivia had never had an Indigenous president or any process of recognition of Indigenous peoples.

And perhaps they do not know that there are other ways of organizing life Aymara ancestral: ayni, minka, athapi, waki, apxata, yanapanakuy. These are community practices that sustain bonds where the system has imposed competition. Ways of life that, even today, question dominant logics—and which even Marx might have envied.

When asked which ethnicity I identify with, I answer: Aymara. Not out of a romantic idea of belonging, but out of a less comfortable inheritance: pain and what follows it—anger. The memory of what was taken. A pain that is not exclusive. It is shared by the descendants of enslaved peoples, by those who have been expelled from their territories, by those whose history has been told by others. Those who lost everything in their Palestinian land know it: it is not only material loss, but the stripping away of dignity, memory, and ways of existing—often denied or narrated from the outside. It is a pain that persists because it has been denied. Minimized. Translated from elsewhere. 

And no, it is not a closed chapter. We will not allow it to be one without recognition and justice. By peaceful means or by force, if necessary. 

Because as long as those responsible do not take accountability, do not return what was taken, and our lives are not valued equally to “white” lives, there will be no peace.

In my luggage I brought, among other things, a method and an Aymara dictionary. I don’t know if I will learn the language as I would like, but one thing became clear: I had not felt so at home in a long time. And it was not a place. It was the awareness of belonging.



🇳🇱 Geglobaliseerde ontmenselijking


Dat deze kant van de wereld strategisch een individualistisch systeem heeft ontwikkeld, gebaseerd op consumptie als manier van bestaan—“zeg me wat je consumeert en ik zal je zeggen wie je bent”, “zeg me welk merk je gebruikt en ik zal je zeggen in welke buurt je woont”—is niet verrassend. Het scherm vermaakt niet alleen: het beschermt ook. Het voorkomt dat we om ons heen kijken en beseffen dat we niet alleen zijn. Consumeren is comfortabel.

Zelfs onderwijs is veranderd in een consumptiegoed: het biedt verteerbare, geruststellende verhalen, ontworpen om niet te verstoren. In de geschiedenislessen spreken we over “ontdekte” gebieden, veroverde rijkdommen, de export van religie, wetenschap en beschaving. We spreken ook over pijn, ja, maar over bepaalde soorten pijn: de Holocaust bijvoorbeeld, of die welke Hollywood toont via Vietnam, of het leed van koningen tijdens onafhankelijkheidsoorlogen. Andere vormen van pijn doen minder in het dominante verhaal. Want lijden lijkt alleen universele waarde te krijgen wanneer het “made in the West” is.

Niemand wil de plaats van de slechterik innemen. Als er schade is aangericht, is het beter die niet te benoemen. Verdergaan alsof het niet bestaat. Maar het bestaat wel. Kolonialisme is geen afgesloten hoofdstuk, maar een voortzetting. De acteurs veranderen, niet het script. En de geschiedenis—die zogenaamd voorbij is—blijft zich herhalen.

Ik keerde terug naar Bolivia—mijn thuis, mijn land—om mijn mensen te zien. “Mijn” niet in bezittelijke zin, maar als gedeeld behoren. Deze reis was anders. Ik ging met mijn moeder mee, om haar te begeleiden bij haar administratieve zaken en misschien om dichter bij haar te komen. Iets daarvan gebeurde. Maar er was ook een andere vaststelling: terugkeren leidde niet langer naar een plek die op mij wachtte. Die “familiale kern” was steeds kleiner geworden tot ze verdween.

De context was ook niet vreemd. Ik kwam aan in een gespannen politiek klimaat, na presidentsverkiezingen die meer vragen dan antwoorden achterlieten. Voor mijn reis had het nieuws over een vliegtuigcrash in El Alto—dat geld vervoerde—al de ronde gedaan. Ik besteedde er weinig aandacht aan totdat bij aankomst, terwijl ik mijn cocathee betaalde, een biljet van 20 bolivianos op de luchthaven zorgvuldig werd gecontroleerd: gelukkig was het geen serie B.

Later hoorde ik wat er gebeurd was. Na het ongeluk renden mensen om de biljetten op te rapen die uit de lucht vielen. Er waren doden, gewonden, slachtoffers die niet geholpen werden. De maatschappelijke veroordeling was onmiddellijk: “barbarij”, “gierigheid”, “dat soort mensen”. Wat volgde was voorspelbaar: verbod op de B-serie biljetten en morele sanctie. Geen vragen. Geen poging tot begrip.

Ik zocht plekken voor gesprek: fora, bijeenkomsten, debatten. Urgente thema’s—media-transparantie, gemeenschapsorganisatie, verkiezingsprocessen—met ernst behandeld door bekende stemmen. Maar de zalen waren bijna leeg. Meer dan afwezigheid van publiek voelde ik een ontkoppeling: half engagement, politiek zonder basis.

Op straat uitte intensiteit zich anders. Voetbal mobiliseerde meer dan welk publiek debat ook. De droom om het WK te halen, de gedeelde teleurstelling. Ook waren er protesten: onbetaalde aannemers, blokkades van transporteurs door vervalste brandstof die hun werkmiddelen beschadigt. Legitieme eisen, door de meerderheid gelaten aanvaard als een ongemak.

De subnationale verkiezingen kwamen in die context: de langverwachte dag om naar de stembus te gaan en een democratisch recht uit te oefenen. Ik ging mee als kijker, omdat ik geen inwoner ben en dus niet kan stemmen. Veel kiezers kwamen zonder hun stem al bepaald te hebben, alsof ze naar het slachthuis gingen. Er waren te veel kandidaten en de debatten werden gekenmerkt door lage deelname en beledigingen.

In La Paz won de burgemeestersverkiezing een kandidaat met de achternaam Dockweiler, wiens campagnebeeld verbonden was met het kabelbaansysteem (een project dat werd gepromoot en werkelijk gemaakt is tijdens de regering van MAS). In interviews vermeed hij zich echter te definiëren als MAS-gezind of links, en noemde hij zichzelf een “humanist” die de bureaucratie wilde verminderen.

Ik denk dat veel “jailones” op hem hebben gestemd, omdat bureaucratie en corruptie nog steeds diep verankerd zijn in de openbare dienstverlening. Ik heb het eerder meegemaakt en nu opnieuw, terwijl ik mijn moeder begeleidde bij administratieve procedures: heel vroeg opstaan om een nummer te krijgen, uren wachten voor een document dat niet eens direct met haar pensioenaanvraag te maken had. Ik kwam om 5 uur ’s ochtends aan en mensen stonden er al sinds 1 uur ’s nachts, en toch waren de nummers op.

Toen ik op het punt stond me aan te sluiten bij degenen die al de straat blokkeerden om aandacht te eisen, kreeg ik te horen dat het in de zuidelijke zone makkelijker ging. En dat klopte. De zuidelijke zone is een soort bubbel binnen de stad La Paz: moderne winkels, grote huizen, bars met verwarmde terrassen.

De mensen daar lijken sterk op degenen die Víctor Jara in een van zijn liedjes beschrijft. In Bolivia noemen we hen “jailones” (elite / high society). Als je hen vraagt naar hun ergste nachtmerrie, vertellen ze over het trauma van de dagen na de staatsgreep van 2019—al noemen zij het anders—toen mensen uit El Alto naar beneden kwamen schreeuwend: “Nu wel, burgeroorlog!”

Zij zeggen dat de mensen uit El Alto, de Aymara, “verbitterde wilden” zijn; anderen noemen hen “taaie tegenstanders.” De jailones gebruiken woorden als “heavy” om ernst uit te drukken en bewonderen Europa en zijn “beschaving”, ervan overtuigd dat dingen daar goed geregeld zijn.

Wat zij niet weten—anders dan ik—is dat er ook in Europa bureaucratie en corruptie bestaan, en dat mensen vaak een “extra” betalen om procedures te versnellen. Zijn wij degenen die die gewoonte exporteren?

Op een andere dag zag ik iemand op de grond liggen, in een hoek. Hij leek dood. Ik ging dichterbij: hij ademde. Het verbaasde me dat niemand anders dat deed, dat niemand stopte om zich hetzelfde af te vragen als ik. Iedereen liep onverschillig voorbij, alsof ze hem niet zagen.

Ik zag die scène zoals ik ook de meest arrogante jailones zag, in tegenstelling met de verdrietige en harde blik—met cocablad in de mond—van iemand die op de markt goederen voor anderen draagt. Soms lijkt het alsof Bolivia nooit een inheemse president heeft gehad of een proces van erkenning van inheemse volkeren.

En misschien weten ze niet dat er andere manieren zijn om het leven te organiseren, voorouderlijke Aymara: ayni, minka, athapi, waki, apxata, yanapanakuy. Gemeenschapspraktijken die banden in stand houden waar het systeem competitie heeft opgelegd. Levensvormen die, zelfs vandaag, de dominante logica’s in vraag stellen—en waar zelfs Marx jaloers op zou zijn.

Wanneer mij gevraagd wordt met welke etniciteit ik mij identificeer, antwoord ik: Aymara. Niet vanuit een romantisch idee van identiteit, maar vanuit een minder comfortabele erfenis: pijn en wat daarop volgt—woede. De herinnering aan wat is afgenomen. Een pijn die niet exclusief is. Ze wordt gedeeld door afstammelingen van tot slaaf gemaakte volkeren, door mensen die uit hun territoria zijn verdreven, door mensen van wie de geschiedenis door anderen is verteld. Wie alles verloor in zijn Palestijnse land weet het: het is niet alleen materieel verlies, maar het ontnemen van waardigheid, herinnering en bestaansvormen—vaak ontkend of van buitenaf verteld. Het is een pijn die blijft bestaan omdat ze is ontkend. Geminimaliseerd. Van buitenaf vertaald. 

En nee, dit is geen afgesloten hoofdstuk. We zullen niet toestaan dat het dat wordt zonder erkenning en rechtvaardigheid. Desnoods met zachte of harde middelen, als het moet. Want zolang de verantwoordelijken geen verantwoordelijkheid nemen, niet teruggeven wat is afgenomen en onze levens niet gelijkwaardig zijn aan “witte” levens, zal er geen vrede zijn.

In mijn bagage bracht ik onder andere een methode en een Aymara-woordenboek mee. Ik weet niet of ik de taal zal leren zoals ik zou willen, maar één ding werd duidelijk: ik heb me lange tijd niet zo thuis gevoeld. En het was geen plek. Het was het besef van behoren.


🇵🇹 Desumanização globalizada


Que este lado do mundo tenha desenvolvido estrategicamente um sistema individualista, baseado no consumo como forma de existência—“diga-me o que consomes e dir-te-ei quem és”, “diga-me que marca usas e dir-te-ei em que bairro vives”—não surpreende. A tela não apenas entretém: também protege. Evita que olhemos ao redor e percebamos que não estamos sozinhos. Consumir é confortável.

Até a educação se transformou num bem de consumo: oferece narrativas digeríveis, tranquilizadoras, pensadas para não incomodar. Nas aulas de história fala-se de territórios “descobertos”, riquezas conquistadas, exportação de religião, ciência e civilização. Fala-se também da dor, sim, mas de certas dores: o Holocausto, por exemplo, ou aquele que Hollywood expõe através do Vietname, ou o sofrimento dos reis nas guerras de independência. Outras dores têm menos valor na narrativa dominante. Porque o sofrimento só parece adquirir valor universal quando é “made in West”.

Ninguém quer ocupar o lugar do vilão. Se houve dano, é melhor não o nomear. Seguir em frente como se não existisse. Mas existe. O colonialismo não é um capítulo encerrado, mas uma continuidade. Mudam os atores, não o guião. E a história—supostamente superada—insiste em repetir-se.

Voltei à Bolívia—minha casa, minha terra—para ver o meu povo. “Meu”, não no sentido possessivo, mas como pertença partilhada. Esta viagem foi diferente. Fui com a minha mãe, para a acompanhar nos seus trâmites e, talvez, para me aproximar dela. Algo disso aconteceu. Mas houve também outra constatação: o regresso já não levava a um lugar que me esperava.

O contexto também não era alheio. Cheguei num clima político tenso, após eleições presidenciais que deixaram mais perguntas do que respostas. Antes da viagem, já circulava a notícia da queda de um avião em El Alto—que transportava dinheiro. Só lhe dei atenção quando, ao chegar, ao pagar o meu chá de coca, um bilhete de 20 bolivianos foi cuidadosamente verificado no aeroporto: felizmente não era da série B.

Depois soube o que aconteceu. Após o acidente, as pessoas correram para apanhar os bilhetes que caíam do céu. Houve mortos, feridos, vítimas que não foram socorridas. A condenação social foi imediata: “barbárie”, “ganância”, “essas pessoas”. O que se seguiu foi previsível: proibição dos bilhetes da série B e sanção moral. Nenhuma pergunta. Nenhuma tentativa de compreensão.

Procurei espaços de conversa: fóruns, encontros, debates. Temas urgentes—transparência dos meios de comunicação, organização comunitária, processos eleitorais—tratados com rigor por vozes reconhecidas. Mas as salas estavam quase vazias.

Na rua, a intensidade manifestava-se de outra forma. O futebol mobilizava mais do que qualquer debate público. A ilusão de qualificação para o Mundial, a frustração partilhada. Também houve protestos: empreiteiros sem pagamento, bloqueios de transportadores por combustível adulterado que danifica as suas ferramentas de trabalho.

As eleições subnacionais chegaram nesse contexto: o dia tão esperado de ir às urnas e exercer um direito democrático. Eu fui como acompanhante, já que não sou residente e, portanto, não posso votar. Muitos eleitores chegaram sem ter decidido o voto, como quem vai para o matadouro. Havia demasiados candidatos, e os debates foram marcados por baixa participação e insultos.

Em La Paz, venceu a eleição para prefeito um candidato de sobrenome Dockweiler, cuja imagem de campanha estava ligada ao sistema de teleférico (projeto impulsionado durante o governo do MAS). No entanto, em entrevistas ele evitava se definir como masista ou de esquerda, chamando-se de “humanista” e prometendo reduzir a burocracia.

Acredito que muitos “jailones” votaram nele, porque a burocracia e a corrupção continuam profundamente enraizadas no serviço público. Eu já tinha vivido isso antes e voltei a vivê-lo agora, acompanhando minha mãe em trâmites administrativos: acordar de madrugada para conseguir uma ficha, esperar horas por um documento que nem sequer estava diretamente ligado ao processo de aposentadoria dela. Cheguei às 5 da manhã e já havia pessoas esperando desde a 1 da manhã, e ainda assim as fichas se esgotaram.

Quando estava prestes a me juntar aos que já bloqueavam a rua exigindo atendimento, disseram-me que na Zona Sul era mais fácil ser atendido. E era verdade. A Zona Sul é uma bolha dentro da cidade de La Paz: lojas modernas, casas grandes, bares com terraços aquecidos.

As pessoas dali se parecem muito com aquelas descritas por Víctor Jara em uma de suas músicas. Na Bolívia, chamamos essas pessoas de “jailones” (alta classe/elite). Se você pergunta qual é o seu pior pesadelo, eles falam do trauma dos dias após o golpe de 2019—embora o nomeiem de outra forma—quando os habitantes de El Alto desciam gritando: “Agora sim, guerra civil!”

Eles dizem que os de El Alto, os aimaras, são “selvagens ressentidos”; outros os chamam de “osso duro de roer.” Os jailones usam palavras como “heavy” para expressar gravidade e admiram a Europa e sua “civilização”, convencidos de que lá as coisas funcionam bem.

O que eles não sabem—e eu sei—é que na Europa também há burocracia e corrupção, e que muitas vezes as pessoas pagam um “extra” para acelerar seus trâmites. Seremos nós que estamos exportando esse costume?

Em outro dia, vi alguém caído no chão, em uma esquina. Parecia morto. Me aproximei: ele respirava. Me surpreendeu que ninguém mais o fizesse, que ninguém parasse sequer para se perguntar o mesmo que eu. Todos passavam indiferentes, como se não o vissem.

Vi aquela cena como também vi os jailones mais arrogantes de todos, em contraste com o olhar triste e duro—com a folha de coca na boca—de quem carrega sacos no mercado para os outros. Às vezes, parece que a Bolívia nunca teve um presidente indígena nem passou por um processo de reconhecimento dos povos originários.

E talvez não saibam que existem outras formas de organizar a vida aymaras ancestrais: ayni, minka, athapi, waki, apxata, yanapanakuy. Práticas comunitárias que sustentam vínculos onde o sistema impôs competição. Formas de vida que, ainda hoje, questionam as lógicas dominantes—e que até Marx teria invejado.

Quando me perguntam com que etnia me identifico, respondo: aymara. Não por romantização, mas por uma herança desconfortável: a dor e o que vem depois dela—raiva. A memória do que foi retirado.

Uma dor que não é exclusiva. É partilhada pelos descendentes de povos escravizados, por aqueles que foram expulsos dos seus territórios, por aqueles cuja história foi contada por outros. Quem perdeu tudo na sua terra palestiniana sabe: não é apenas uma perda material, mas o despojamento da dignidade, da memória e das formas de existir—muitas vezes negado ou narrado a partir de fora. É uma dor que persiste porque foi negada. Minorizada. Traduzida de fora. 

E não, não é um capítulo encerrado. Não deixaremos que o seja sem reconhecimento e justiça. Por bem ou por mal, se necessário. Porque enquanto os responsáveis não assumirem a sua responsabilidade, não devolverem o que foi tirado e as nossas vidas não tiverem o mesmo valor que vidas “brancas”, não haverá paz.

Na minha bagagem trouxe, entre outras coisas, um método e um dicionário aymara. Não sei se vou aprender a língua como gostaria, mas uma coisa ficou clara: fazia muito tempo que não me sentia tão em casa. E não era um lugar. Era a consciência de pertença.


INVISIBILIDADES 2

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