jueves, 11 de junio de 2026

INVISIBILIDADES 2 (português)

 Em um comunicado, o presidente da Bolívia convocou um confronto civil por meio de um discurso claramente racista. Nesse discurso, garantiu apoio militar e até judicial a um grupo de bolivianos, enquanto negava e deslegitimava outro grupo ao utilizar os termos “bolivianos do futuro” e “bolivianos do passado”. Com esta última expressão, referia-se aos manifestantes, reduzindo-os a um grupo pequeno, insignificante e desprovido de valor humano, que, segundo ele, nem sequer seria lembrado pela história.

Pouco depois de o comunicado circular, o presidente o removeu das redes sociais, como alguém que esconde a mão depois de atirar uma pedra — um verdadeiro ato de covardia. Ainda assim, sua mensagem chegou exatamente aonde deveria chegar: ao núcleo fascista e oligárquico, carregado de ódio contra o “índio”, um setor que desfruta de privilégios, considera-se branco e, por isso, superior. Seria interessante ver essa suposta branquitude ser colocada à prova na América do Norte ou na Europa.

Foi assim que, no último fim de semana, o grupo violento que se autodenomina “La Unión Juvenil Cruceñista”, armado com facões e outras armas e sob influência de drogas, atacou membros de comunidades camponesas na região de San Julián. Como resultado, um comunário foi morto por um golpe de facão na testa. No entanto, a imprensa não menciona esse fato; uma imprensa cúmplice dessa e de outras mortes que também não aparecem nos meios oficiais, como se essas vidas não tivessem qualquer valor.

O que a mídia divulga é uma imagem distorcida das marchas. Elas são apresentadas como violentas, enquanto a população urbana é retratada como vítima. O medo é alimentado por uma narrativa que reduz os manifestantes a alguns vândalos supostamente pagos pelo ex-presidente Evo Morales, que, ao mesmo tempo, é perseguido por diversos crimes sem que provas conclusivas tenham sido apresentadas.

A influência do aparato midiático ultrapassa inclusive as fronteiras nacionais, reproduzindo como um eco as narrativas produzidas pelos centros bolivianos de desinformação. Não é coincidência que a rebelião boliviana seja pouco mencionada em muitos países europeus e que, quando aparece, seja reduzida a um pequeno grupo manipulado que apoia Evo Morales. Além de silenciar a repressão e as vítimas, os meios de comunicação internacionais tampouco explicam quem marcha, quem organiza os bloqueios, quais são suas reivindicações ou pelo que lutam.

O que não se diz é que comunidades camponesas e indígenas de diferentes regiões do país aderiram às mobilizações para defender seu direito à terra; que professores e trabalhadores exigem aumentos salariais prometidos; e que os mineiros, após séculos trabalhando em condições precárias, continuam lutando enquanto interesses empresariais estrangeiros acumulam riqueza graças ao sacrifício daqueles que extraem os recursos do subsolo.

Todos eles defendem os recursos nacionais e exigem a renúncia de um presidente que, um dia, aproximou-se dessas comunidades vestindo um poncho vermelho, como se fosse apenas uma peça de roupa, quando na realidade se trata de um símbolo aimará de resistência e dignidade. Esse mesmo homem utilizou o poncho para conquistar o apoio e os votos das comunidades. Hoje, porém, é ele quem chama de “vândalos” e “selvagens” o poncho vermelho e o povo que traiu por meio de medidas e leis que ameaçam seu acesso digno à terra que trabalham honestamente.

Ele os chama de “bolivianos do passado”, negando simbolicamente seu direito de existir com dignidade, e classifica suas reivindicações como “terrorismo” e “narcoterrorismo”.

O governo de Rodrigo Paz, no entanto, sente-se fortalecido. Conta com o apoio de seu padrinho Trump, do Estado de Israel e de seus aliados. Conta também com estratégias de inteligência e segurança feitas nos Estados Unidos. Por isso, não é surpreendente que se repitam padrões semelhantes aos observados na Palestina ocupada: alimentar o ódio dentro de um setor da sociedade, espalhar medo e exaustão, atribuir a um grupo o papel de vítima, manipular os meios de comunicação e criar inimigos internos.

Os atos de resistência são apresentados como atos de terrorismo. O que realmente acontece é filtrado, e seu significado é distorcido na cobertura internacional. Essas são estratégias destinadas a criminalizar e minimizar a luta social, culminando na adoção de leis e estados de exceção que concedem ao exército e à polícia o poder de deter e atirar contra a população mobilizada, tudo isso com o consentimento de cidadãos previamente doutrinados pelo ódio.

Trata-se do ódio contra os povos indígenas, tolerados apenas quando ocupam posições de serviço e subordinação, mas condenados assim que ousam participar da construção do futuro do país — um privilégio que, segundo essa lógica colonial, estaria reservado exclusivamente à elite oligárquica.

E o soldado? E o policial? Eles também são subordinados. Filhos e filhas de povos indígenas que acabam disparando contra seus próprios ancestrais e obedecendo ordens dirigidas contra suas próprias comunidades. Treinados para não sentir dor nem empatia, são levados a desumanizar o seu próprio povo.

Tornar invisível para o exterior o que está acontecendo significa, na prática, abrir caminho para um massacre. Isso já ocorreu inúmeras vezes ao longo da história, contra os mesmos povos e sob as ordens daqueles que hoje apoiam ou executam campanhas genocidas de limpeza étnica contra povos como os do Líbano, da Palestina, de Cuba e de tantos outros que ousam resistir de pé e de forma soberana.

Os povos que permanecem despertos diante dessas realidades deveriam unir-se a essa luta: denunciando abusos, tornando visíveis essas injustiças, ocupando as ruas e erguendo uma só voz em defesa de seu direito de existir em liberdade.

E aqueles que exigiram aos gritos a decretação do estado de exceção deveriam lembrar, quando se sentarem tranquilamente para comer seu prato de frango com batatas, que, segundo esta perspectiva, esse alimento está manchado com o sangue de seus irmãos e irmãs.

E para o Ocidente, que muitas vezes possui apenas uma vaga noção do que acontece naquele país distante chamado Bolívia, vale recordar que o país possui uma das maiores reservas de lítio do mundo. Trata-se do mesmo mineral utilizado na fabricação das baterias que alimentam inúmeros dispositivos tecnológicos. Um recurso atualmente cobiçado por aqueles que financiam guerras e procuram controlar essa riqueza.

Cada vez que você abrir uma tela, pense no sangue que, segundo esta visão, está por trás de muitos dos recursos que sustentam o mundo moderno. O sangue de pessoas daquele distante país chamado Bolívia, que defendem seus recursos e sua soberania.

E aos jilatas e kullakas dos povos que resistem em todo o mundo: não haverá paz sem justiça. Na cultura boliviana, o ayni é um princípio de reciprocidade e trabalho coletivo. Graças a esse sistema, meu país consegue organizar-se de maneira articulada e solidária em escala nacional. Somos milhões e sempre voltaremos. Até a vitória, sempre.

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